segurancaalimentarProjeto de Segurança Alimentar e Conservação Ambiental

A Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN) define segurança alimentar como a garantia de que as famílias tenham acesso físico e econômico regular e permanente a conjunto básico de alimentos em quantidade e qualidade significantes para atender aos requerimentos nutricionais.

As comunidades ribeirinhas do Alto Arapiuns possuem uma alimentação muito próxima das comunidades indígenas, cuja dieta básica é a farinha de mandioca, caça e pesca. Tal dieta atende aos requisitos nutricionais de segurança alimentar, porém, nem sempre tais comunidades têm acesso livre e fácil a tal dieta.

Para o plantio da mandioca os ribeirinhos utilizam o sistema tradicional da Amazônia de “corte e queima”, abrindo clareiras na floresta. A própria floresta tem a capacidade de recompor essa clareira, quando tais comunidades são nômades e migram de tempos em tempos para outras áreas. Entretanto, a mudança na utilização das terras na Amazônia com a fixação e posse das terras por comunidades ribeirinhas, traz consequências ao sistema como o empobrecimento dos solos sem possibilidade de regeneração e escassez de caça, o que, de fato, já é relatado pelos moradores destas comunidades. Adicionalmente a bacia do rio Arapiuns, devido a um problema de acidez característico de suas águas, não é rica em peixes.

Estas constatações sugerem um projeto para construir junto à comunidade, capacidade de adaptação às novas realidades do sistema agrícola que agreguem os conhecimentos tradicionais com novas técnicas de cultivo. Essa construção está gerando um projeto de segurança alimentar que permite a melhoria na qualidade dos solos, aumento de produtividade dos roçados de mandioca assim como uma diversificação na produção, e conservação ambiental, trazendo bons resultados tanto na melhoria da saúde das pessoas como na saúde ambiental.

Em abril de 2013, a mestre em economia, Cristina Fachini, pesquisadora pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, e o biólogo, Paulo Santana, especialista em projetos socioambientais, visitaram a comunidade de São Francisco do Aruã e passaram três dias conhecendo seus moradores, as técnicas de cultivo, os sistemas de produção, e as fontes de alimentação.

Em conversa com seus moradores, entre eles, a responsável pela merenda escolar, a agente comunitária de saúde, o presidente da associação comunitária, identificou-se que um projeto de segurança alimentar seria prioritário para fornecer outras fontes naturais e saudáveis de alimentos, gerar garantia de abastecimento e alternativas de geração de renda.

Em fevereiro de 2014 o agrônomo Enéas Carvalho Junior também visitou as áreas do projeto de saúde bucal e, em conversa com agricultores das comunidades e agrônomos da região de Santarém, propôs um projeto piloto de implantação de um hectare (1ha) por família, dividido em plantio rotacionado de mandioca, milho e feijão, além de uma parcela fixa de pimenta do reino. A mandioca é destinada à alimentação da própria família, o feijão guandú à fertilização do solo; o milho à alimentação animal (galinhas) e a pimenta do reino para comercialização e geração de excedente para auto sustento familiar. A pimenta do reino já é tradicional na região, tem bom valor de mercado, é leve e não perecível, o que facilita a logística de comercialização do produto. O estudo econômico do projeto também demonstrou boas perspectivas de retorno para as comunidades atendidas com a venda desse produto. O projeto ainda busca a introdução mínima de insumos químicos, priorizando sistemas de produção que estejam adaptados e coerentes ao ambiente, além de estimular o uso de áreas de clareiras já abertas na floresta, e que enfrentam baixa capacidade de regeneração em curto e médio prazo.

Ainda em 2014 o projeto foi apresentado às comunidades de Prainha do Maró, Piracuí, Fé em Deus e São Francisco do Aruã, já atendidas pela saúde bucal, que selecionaram sete famílias responsáveis, cada uma, por um hectare de terra, para a implantação dos projetos piloto.

Tais famílias receberam do projeto o material necessário para o plantio das culturas, como sementes, insumos e equipamentos manuais, além do conhecimento técnico para que pudessem efetuar as melhorias necessárias e demandadas nas áreas escolhidas.

As famílias atendidas se empenharam muito em preparar as áreas para o plantio, e as estacas para a produção de pimenta do reino, tarefas muito exigentes em tempo, conhecimento e esforço físico, dispondo de outras atividades em comunidade, para execução do projeto.

Um dos diferenciais do projeto é o compartilhamento de informações técnicas constantes entre as comunidades e o agrônomo responsável, que visita as áreas piloto a cada dois meses.

O projeto encontra-se em fase de execução e já encontrou grandes desafios, como a seca que tem assolado a região, efeito do el niño. Como todo projeto agrícola, esse projeto não é linear, e demanda um esforço conjunto de adaptação e resiliência entre equipe e comunidades, que se sentem preparados para encarar tais dificuldades. Os próximos passos são a introdução de galinheiros, comercialização da pimenta do reino e a ampliação do projeto para o atendimento de mais famílias.

A área do projeto tem potencial para atender 200 famílias e até o momento apenas 7 estão participando da fase piloto. Quanto mais contribuições o projeto receber, maior o número de famílias que se tornarão autônomas e mais áreas degradadas serão recuperadas para o uso agrícola sustentável e conservação da natureza.